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Nesta pequena entrevista, Milanez revela um pouco de seu pensamento na área socioambinetal e de sustentabilidade.

 
1. Cidade Bem Tratada - Fale sobre a missão da AGAPAN. 
Francisco Milanez - A AGAPAN tem 48 anos. Teve como seu primeiro presidente o ambientalista José Lutzenberger. A Missão da AGAPAN é a vida sempre em primeiro lugar. Além de ser a primeira entidade ecológica brasileira e da América Latina, foi uma das primeira do mundo. Desde seu início, discutia uma nova forma de pensar a sociedade, um novo sistema de valores e de viver em harmonia com a natureza. A entidade sempre tratou de um novo tipo de desenvolvimento, muito antes de surgir o desenvolvimento sustentável. A questão da Agroecologia, antes Agricultura Ecológica ou Regenerativa, também esteve sob o olhar da entidade no tocante a produção agroecológica. 
 
2. Cidade Bem Tratada - A AGAPAN existe desde 1971 na defesa do Meio Ambiente. No atual cenário brasileiro pode-se dizer que estamos retrocedendo?
Francisco Milanez - Este é o mais triste cenário que estamos vivendo. Em nível municipal, por exemplo, somente com um Decreto de fevereiro deste ano, foram anulados 48 anos de luta ambiental. Todas as árvores da cidade, que eram protegidas, foram desprotegidas, por este decreto que derrubou 78 decretos. Em nível estadual estão revendo o código ambiental e várias outras conquistas estão sob risco de serem perdidas. Em nível federal, é o governo que mais está descontruindo o meio ambiente, colocando na mão de agricultores que praticam crimes ambientais e na gestão atual do Ministro desta pasta. O mundo inteiro está assombrado com tudo que está acontecendo. É um retrocesso total. Estamos talvez pior do que antes de começar a luta ambiental. 
 
3. Cidade Bem Tratada - Na contramão de todo um modo de vida mais natural e sustentável o Ministério da Agricultura liberou recentemente 169 novos registros de defensivos agrícolas. Como avalia esta liberação? 
Francisco Milanez - Este fato é mais uma parte desta desconstrução que está prejudicando a exportação de grãos convencionais como a soja do Brasil. Muitos já estão começando a não querer mais a soja brasileira, porque a soja plantada na Amazônia já não querem e nem a plantada no resto do país que hoje é tido como o ‘paraíso dos agrotóxicos’. Isso, justamente hoje, quando poderíamos estar substituindo tudo isso por soja orgânica, aumentando em 30% a riqueza da exportação no País. Sem falar que assim se diminuiria a importação de insumos. Isso é um ‘entreguismo’ e um envenenamento de nosso povo, de todos nós. Envenenamento geral, dos rios. São 7,2 Kg de agrotóxicos consumidos por brasileiro ao ano. É muita coisa.
 
4. Cidade Bem Tratada - O Projeto Mina Guaíba prevê desenvolvimento da Região, gerando renda, empregos e oportunidades para diversos setores da economia. Mas e o Meio Ambiente e a comunidade do entorno, como ficariam?
Francisco Milanez - Este Projeto Mina Guaíba fala que haverá desenvolvimento na região, só que as regiões carboníferas no mundo inteiro são pobres, doentes e feias, com um futuro mais horroroso ainda.  O que irão ‘gerar de empregos’, como alegam, será muito menos do que os empregos que vão destruir nos assentamentos que vão ser retirados. Vão destruir também os setores de areia e cascalho, que é um setor do qual vivem muitas pessoas. É um ‘jogo’ para uma empresa ganhar muito dinheiro contra a população do Estado inteiro. Esta empresa prejudica a imagem do Rio Grande do Sul. É o primeiro passo gigante para transformar o Estado, que hoje tem 170 minas autorizadas. Iremos de volta ao passado e vamos ser uma Minas Gerais, que é um Estado destruído pela mineração. Este é um problema enorme, dentro da capital, a apenas 16Km do centro de Porto Alegre, na região metropolitana. Ninguém, que tivesse bom senso e respeito pela cidade e meio ambiente, faria a maior mina da América Latina ao lado de uma capital. Isso vai ser muito prejudicial à Porto Alegre, pois não vamos mais atrair investimento sustentáveis, com olhar no futuro e de quem viria morar em uma cidade que terá uma mina perto. O risco desta mineração vai causar a poluição dos lençóis subterrâneos quando deixarem de bombear água e tapar com verde, porque toda a contaminação vai para o subsolo, imersa na água com o rejeito, liberando neste lençol uma poluição imensa por centenas de anos. Infelizmente, o lençol subterrâneo não tem como se despoluir, ou seja, estarão condenando a água mais cristalina que há ao lado da cidade, sem falar que irão destruir as plantações ao redor. Vão tirar o que toda a cidade moderna quer, que é um cinturão agroecológico para proteger o ar, a água da cidade. Além de tirar um assentamento de produção de arroz orgânico, frutas e verduras orgânicas para colocar uma mineração de carvão. É uma energia totalmente ultrapassada, que todos os países tem planos para se livrar do carvão, que é um problema, enquanto aqui se quer usar. É uma ‘pá de cal’ no desenvolvimento gaúcho. 
 
5. Cidade Bem Tratada - Espaço livre para abordar algo que acredite ser pertinente e que esteja relacionado ao Seminário Cidade Bem Tratada.
Francisco Milanez - Quanto ao Seminário Cidade Bem Tratada, eu diria que está no contrário do que Porto Alegre está vivendo, porque a visão municipal não está apostando na qualidade de vida dos portoalegrenses. Não estão se posicionando com relação à empreendimentos ao redor da cidade, como é o caso desta mina, e ao mesmo tempo estão destruindo a maior arborização de ruas do Brasil com leis, facilitando podas, derrubadas de árvores saudáveis. É algo que nunca se viu antes esta total falta de gestão ambiental, um despreparo. Uma cidade bem tratada é a cidade mais ambientalmente compatível e melhor para a saúde mental e física de seus moradores. Então, Porto Alegre está andando ao contrário do que sempre andou, porque foi uma cidade pioneira. O movimento ambientalista nasceu aqui e hoje está deste jeito. É uma tristeza que se vê sendo reproduzida em várias outras cidades do Brasil. Fala-se de perfumaria ambiental e Curitiba é um bom exemplo disso porque faz obras lindas, projetos interessantes, mas os dados ambientais de Curitiba são inferiores aos de Porto Alegre. Isso que Curitiba é uma cidade recortada, sem favelas, de classe média, mas as favelas estão todas do lado de fora da cidade. Em nossa cidade não adianta colocar símbolos verdes e deixar o meio ambiente ser destruído, ou colocar calçadas e não limpar a água. O projeto Guaíba Vive não se ouve mais falar, mas calçadão na beira do Guaíba não é meio ambiente. É muito bom, bonito, inclusive nós participamos no planejamento da orla, mas o mais importante é ter uma orla saudável para oferecer, pois não adianta estar ao lado de uma água podre.