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Luiz Fazio é engenheiro civil e um “idealista atípico” como ele mesmo se classifica. Fundador da Associação Biosaneamento, que recebeu recentemente o Prêmio de Responsabilidade Social pela Associação Brasileira de Facilities (Abrafac), ele vem ao 8º Seminário Cidade Bem Tratada para apresentar esse case que alia saneamento básico e geração de energia por meio de biodigestores.

Saiba mais sobre o assunto na entrevista a seguir.
 
Cidade Bem Tratada – Fale um pouco sobre o projeto Biosaneamento.
 
Luiz Fazio – O saneamento básico no Brasil é prerrogativa de empresas concessionárias. A gente tem uma brecha para atuação implantando outras alternativas em situações onde essas empresas não operam por conta da lei não permitir que as concessionárias entrem em áreas de ocupação irregular. Então, buscamos estabelecer um diálogo para desenvolver quatro pilotos em São Paulo (no Grajaú), onde  avançamos muito bem com a Sabesp, e já estamos trabalhando também em outros dois no Jardim Gramacho, comunidade do Rio de Janeiro. Todo o lixo do Rio de Janeiro ia para o Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, um grande lixão a céu aberto contaminando a Baía da Guanabara. Cerca de 20 mil famílias viviam de reciclar o lixo de lá, no meio daqueles urubus, no calor infernal. Depois de denúncias, a prefeitura encerrou o lixão e deu 14 mil reais para cada família começar vida nova, mas elas não conseguiram. Hoje essas 20 mil famílias vivem de doações. Tem uma ONG parceira (Casa Amarela) apoiando a gente lá e tivemos uma primeira reunião com o prefeito que se colocou favorável a nos ajudar. 
 
Cidade Bem Tratada – Como o Biosanemento tem mudado a realidade em comunidades carentes?
 
Luiz Fazio - A solução é emergencial, mas empodera as pessoas, é extremamente ecológica porque evita não só a poluição da água, mas tem um efeito contra o aquecimento global muito positivo. Qualquer caixa de esgoto fechada vai fermentar a água. Dentro de um biodigestor ou com um biodigestor próximo à caixa de esgoto, você vai capturar o metano antes que ele vá para a atmosfera. Isso impacta positivamente na geração de crédito de carbono, ajudando no combate ao aquecimento global.
Nosso propósito é devolver esse gás através de uma tubulação simples para um fogareiro na casa. As pessoas passam a poder queimar o gás para cozinhar. Assim, você também ataca outro problema muito grande que é a geração de energia para cocção em comunidades muito empobrecidas. Hoje, com o preço do gás como está, quase todo mundo cozinha o tempo inteiro com lenha, encontrada pelos moradores da comunidade em descartes. Também, normalmente,  não se tem um bom fogão com chaminé e essa madeira é queimada em latas de tinta. Às vezes uma lata serve para cozinhar e outra para fazer o fogão. As mulheres, que geralmente são quem cozinha, inalam essa fumaça, que tem produtos químicos, às vezes chumbo e outros metais pesados. Esse tipo de poluição atmosférica é a principal causa de doenças respiratórias e cardiovasculares..
 
Cidade Bem Tratada – Em uma palestra, você disse que essa solução tem custo baixo. Por que, então, não é mais difundida?
 
Luiz Fazio - O problema do saneamento básico no Brasil é político. Mas são vários motivos: um é a falta de legislação para investimentos privados em saneamento básico, outro, é que favela normalmente é uma invasão, que fica irregular “ad eternum”. Então, a prefeitura não resolve a questão e a concessionária não tem como entrar ali.
Como as pessoas fazem para ter água e esgoto? A comunidade paga às vezes um funcionário da própria concessionária para fazer um gato de água e distribui pela comunidade por mangueiras de má qualidade. Para o esgoto, a solução normalmente é fazer fossas. As pessoas cavam um buraco quadrado de um metro por um metro, botam o cano da privada ali dentro e uma tampa em cima. Aquela fossa, com o tempo, transborda, e você tem um esgoto correndo a céu aberto. Com aquelas mangueiras de baixa qualidade, falta água boa parte do tempo. Quando isso acontece, dá uma pressão na mangueira e o esgoto começa a correr junto com a água e as pessoas ficam doentes.
Há mães que não conseguem trabalhar porque as crianças passam o tempo todo com diarreia. Elas vivem o tempo todo lutando contra infecções sucessivas. Existe um mito muito cruel de que o sistema imunológico de alguém na favela fica mais forte. Na verdade, ele não fica mais forte, fica destruído.  
 
Cidade Bem Tratada – Quais os próximos passos do projeto?
 
Luiz Fazio - O Biosaneamento quer fazer parte de um projeto maior. É um primeiro passo e uma maneira da gente ter o microfone para falar do problema. Eu sou um engenheiro civil, empresário de construção, não sou idealista típico, sou um idealista atípico, mas quero disseminar o biodigestor. É uma tecnologia segura, muito difundida, um modelo que funciona muito bem e pode integrar o sistema de saneamento.
Estamos dando soluções locais, mas não vamos resolver tudo, porque existem questões geográficas e geométricas nas favelas que impedem a instalação de um biodigestor em certas áreas cujo acesso é mais crítico. Mas para comunidades rurais pode ser a solução ideal, com implantação em larga escala. Existem comunidades rurais muito sofridas e com características geográficas mais espalhadas que têm espaço para isso.
Outro fator limitante que nos impede de fazer um biodigestor maior em uma favela mais verticalizada, para 50 famílias por exemplo, é que ele teria que ter um porte maior e precisaria de uma licença ambiental. O nosso biodigestor, que é pequeno, não tem necessidade de aprovação ambiental, por isso é uma solução mais descentralizada.
Com a ação nessas comunidades de São Paulo e Rio de Janeiro, muita gente se engajou na causa, tem muita gente boa envolvida e pensando em como resolver o problema do saneamento básico. Acredito que a ação serve como motor para provocar o movimento, não podemos ficar só no discurso.
 
Foto: Prefeitura de São Paulo