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Com a propriedade de quem lida diariamente com o público varejista e entende das necessidades do consumidor, o presidente da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Rio Grande do Sul (FCDL-RS) Vitor Augusto Koch acredita que um avanço na questão ambiental depende de duas questões: engajamento e monitoramento.

Aos 55 anos, o administrador de empresas que atua no setor de móveis, eletrodomésticos e ferragem e faz a frente como dirigente empresarial há mais de três décadas, esclarece alguns pontos sobre a aplicação de leis ambientais, como a da logística reversa, por exemplo. Segundo ele, entre os quase 100 mil estabelecimentos varejistas do Estado, subdivididos em 80 ramos, alguns são engajados em iniciativas de política reversa, com forte relação entre indústria - varejo - consumidor. Mas em diversos segmentos, sobretudo na indústria, ainda falta integração.

Koch iniciou sua carreira na Câmara de Dirigentes Lojistas de Igrejinha e Três Coroas, como diretor do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), onde foi presidente entre 1997-2001. Amplo defensor do planejamento estratégico e de modelos de gestão voltados ao resultado e a profissionalização e qualificação do setor varejista gaúcho, foi, entre outros cargos, mentor da Agenda Estratégica da Classe Lojista, que tem por objetivo tornar o varejo gaúcho referência nacional. A seguir, confira sua entrevista.

A partir da Política Nacional do Meio Ambiente em 1981, o gerador (importador, fabricante, comerciante) passou a ser responsável pelo ciclo de vida de seus produtos colocados no mercado, tendo que garantir seu reaproveitamento e reciclagem. Com a Política Nacional de Resíduos Sólidos promulgada em 2010, novos conceitos e instrumentos foram introduzidos e vem mais objetivos. Assim, como o setor do comércio está encarando a logística reversa?

Ao longo dos últimos anos temos alguns casos de sucesso na utilização da logística reversa. Atualmente, por exemplo, a estrutura montada para a coleta e o reaproveitamento de pneus é bem eficaz. Outros progressos importantes são perceptíveis no campo dos defensivos agrícolas e baterias, por exemplo. Já o caso do papel/papelão e latas de alumínio o sistema funciona à base de coletores autônomos, com ligação comercial direta ou indireta com usinas de reciclagem. Mas, evidentemente, existem gargalos importantes, os quais acabam sendo os principais poluidores das cidades. No campo das embalagens, o plástico, especialmente garrafas pet, é um dos principais desafios, já que 49% desses objetos são descartados de forma inadequada no Brasil.

De uma forma geral, os lojistas gaúchos buscam atuar de forma colaborativa nas iniciativas de logística reversa. Mas chamamos a atenção para o fato de que tais sistemáticas só funcionam quando todos os agentes envolvidos na cadeia de valor de determinado resíduo estão efetivamente engajados. Na questão do pneu, por exemplo, é mais fácil, uma vez que o consumidor praticamente não tem alternativa, além de trocar este produto em lojas especializadas, facilitando a destinação ecologicamente adequada.

Mas existem questões mais complexas, as quais exigem um processo de conscientização de toda a sociedade. A própria separação dentro do simples conceito de lixo seco e orgânico encontra dificuldades de assimilação em várias comunidades, dificultando a separação  posterior.

Outro ponto que os lojistas chamam incansavelmente a atenção é o dano generalizado provocado pelo comércio informal. O contrabando e outras atividades não legalizadas, além de não recolherem impostos, são profundamente impactantes ao meio ambiente, não apenas na questão da oferta de resíduos sólidos, mas também quanto ao próprio conteúdo tóxico destes, como a contaminação por chumbo.

Neste ponto, a Política Nacional de Resíduos Sólidos de 2010, apesar de criar diretrizes claras, delega ao legislativo e ao executivo municipal várias responsabilidades, as quais muitas vezes não são cumpridas. Prova disto é a permanência de lixões a céu aberto, que deveriam ser extintos até 2014, mas que permanecem uma realidade em cerca de 40% dos municípios do Brasil. Até em Brasília, esta questão só teve seus primeiros passos de equacionamento em pleno 2018.

O que já foi feito e o que está sendo planejado para o cumprimento dessa Política?

As CDLs gaúchas são predominantemente engajadas nos debates municipais, quando o tema é a destinação de resíduos sólidos. O Rio Grande do Sul conta com 99.388 estabelecimentos varejistas (RAIS, 2016), que se subdividem em cerca de 80 diferentes ramos. Como comentamos anteriormente, alguns deles estão mais engajados em iniciativas de política reversa, onde há forte integração entre indústria - varejo - consumidor.

Mas este processo não é tão integrado em vários segmentos, que necessitam de grandes escalas para viabilizar uma estrutura de logística reversa realmente eficaz. Neste caso, especialmente quando há o envolvimento de indústrias – cujo mercado transcende o município e o próprio Estado – há a necessidade de melhoria dos canais de integração. Talvez o equacionamento de gargalos via câmaras setoriais de alcance nacional - envolvendo o poder público e as indústrias - sejam uma solução.

Reitero, finalmente, que qualquer política ambiental só terá plenamente sucesso na medida em que todos os agentes da sociedade estiverem engajados. Uma fiscalização efetiva, especialmente impedindo a informalidade, é uma das chaves do sucesso para a questão.