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Com destacada carreira em saúde pública e meio ambiente global, Carlos Dora possui PhD em Epidemiologia pela Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres. Coordenou o trabalho sobre impactos de políticas setoriais (energia, transporte, moradia e indústria extrativista) sobre a saúde desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Conduziu o desenvolvimento de uma nova iniciativa de saúde urbana para fortalecimento da capacidade de suporte dos sistemas de saúde, voltada para clima e qualidade do ar, que agora monitora os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Quais dados e informações mais relevantes a OMS dispõe sobre os impactos na saúde humana decorrentes do uso das fontes fósseis?

Entre os maiores impactos na saúde com o uso dos combustíveis fosseis, está a poluição do ar, que globalmente causa em torno de sete milhões de mortes ao ano.  

Com a contribuição e engajamento de cientistas do mundo, a OMS desenvolve e atualiza regularmente as “orientações da OMS sobre a qualidade do ar”.  Estas são revisões cientificas rigorosas sobre os impactos na saúde com cuidado especial sobre a qualidade e isenção da evidencia.  Estas orientações existem para o ar ambiente (as mais conhecidas e referência mundial), assim como para o ar no interior dos domicílios, cobrindo poluentes específicos - como o material particulado, o dióxido de carbono e o ozônio, ou os alergénios e o mofo no interior das residências.  As orientações para o ar interior incluem o impacto de certas tecnologias e combustíveis usados para cozinhar, aquecer ou iluminar, como a lenha, o carvão e a querosene. 

A OMS também coleta e veícula dados sobre os níveis de poluição do ar ambiente em distintos locais do mundo. Mantém uma base de dados que recolhe informações através de satélites para a qual contribuem os países, as cidades e as agências. Junto com cientistas de muitos países, a Organição estima níveis de poluição e publica mapas interativos, assim como estimativas para países e cidades, tanto para o ar ambiente como para o ar no interior dos domicílios.  A poluição dentro das residências é estimada por questionários domiciliares estandardizados aplicados por países e agências internacionais, com perguntas sobre o uso de tecnologias e combustíveis domésticos, além de medidas de níveis de poluição interna.     

Quais as principais conclusões da OMS com respeito ao impacto da poluição do ar na saúde?

A poluição do ar causa mortes por doenças crônicas como o infarto do miocárdio, os acidentes cérebrais vasculares (AVCs), o câncer de pulmão e outras respiratórias.  A Organização Mundial da Saúde estima que mundialmente por volta de um quinto das mortes por doenças crônicas são causadas pela poluição do ar.

As fontes fósseis da poluição do ar incluem: o diesel, usado para transporte na estrada e nos barcos, que usam esse combustível muito sujo; na indústria e no aquecimento/esfriamento dos edifícios.  Diesel é carcinogénico

(confirmado pela agência da OMS de investigação sobre o câncer) e uma grande fonte de material particulado fino (PM 2,5) e de dióxido de nitrogênio, dois dos piores poluentes para a saúde.  

O carvão mineral, que é a principal causa de morte por poluição do ar na China, e ainda é muito utilizado na produção de energia elétrica, além de produzir material particulado é a maior causa de exposição ao mercúrio (um metal pesado com severas consequências para o cérebro e outros órgãos). 

Já a querosene, usada para cozinhar ou iluminar domicílios é um grande produtor de material particulado.  A lenha utilizada para cozinhar ou aquecer as casas (lareira) é outra das grandes causas de poluição.  

Uma exceção entre os combustíveis é o gás natural, que queima na sua quase totalidade e desta forma não é uma fonte importante de poluição.  Os biocombustíveis como o etanol também são combustíveis relativamente mais limpos e não são de forma geral fontes importantes de poluição.   

É importante ressaltar que, o equipamento usado para queimar estes combustíveis pode ser mais eficiente e produzir menos poluição ou menos eficiente e piorar significativamente a qualidade do ar.  Tanto os combustíveis quanto a tecnologia utilizada para queima-los devem ser considerados para se possa reduzir os impactos da poluição do ar.

Como minimizar esses impactos?

A solução para prevenir os impactos negativos na saúde é encontrar formas limpas e sustentáveis de exercer as atividades humanas que, correntemente, utilizam os combustíveis que contaminam o ar. Por exemplo, o transporte público urbano, na média, polui menos por passageiro do que veículos individuais.  O beneficio é maior se o ônibus utiliza tecnologia e combustível limpo como o gás ou a eletricidade. Também contribui se ao menos tiver um motor de alta eficiência energética (como o Euro VI).  Andar a pé ou de bicicleta polui quase nada.  A melhor solução para reduzir a poluição causada pela condução é ter um sistema que disponibilize transporte público em abundância e boa qualidade, assim como pistas seguras para andar de bicicleta e para caminhar, pois estes modais além de reduzir a poluição, também diminuem o ruído, os acidentes de tráfego e estimulam o exercício físico, ou seja, protegem a saúde de muitas maneiras.

No que tange eletricidade, é necessário priorizar fontes limpas de energia, como as hidroelétricas, geotérmica, eólica ou solar, esta última e uma opção às termoelétricas baseadas em carvão (que são poluentes).   

A poluição no interior do domicílio pode ser solucionada com adoção de fontes limpas de energia para cozinhar, aquecer, resfriar ou iluminar a casa (eletricidade, gás, solar), acompanhadas de tecnologias com alta eficiência energética.  O ideal é evitar fogão a lenha, lareira, queima de carvão e lâmpada a querosene.

A queima de resíduos domésticos e resíduos agrícolas são também fontes importantes de poluição.  Ainda que isto não envolva combustíveis fósseis, é necessário ter estas outras fontes em mente porque no final a exposição humana total a poluição do ar é que vai determinar os impactos na saúde.   

Que países ou cidades estão enfrentando melhor essa questão?

Há bons exemplos de liderança focados em melhorar a qualidade do ar através da implementação de políticas limpas e sustentáveis em transporte, energia, indústria e gestão de resíduos. Talvez o exemplo mais notório seja a China, que está adotando maciçamente energias limpas (como solar e hidroelétrica), transporte público de boa qualidade, bicicletas (inclusive elétricas), e esta logrando reduzir os níveis de poluição enquanto segue rápido crescimento econômico.  Há cidades na América Latina com alguns dos melhores exemplos de sistema de transporte limpos e duráveis.  Melhora da eficiência energética em domicílios com isolamento térmico associado a ventilação tem sido adotada com ótimos resultados para a redução de doenças e da necessidade de ir ao sistema de saúde, desde a Nova Zelândia até favelas na África do Sul.  A substituição de combustíveis sujos por limpos e a adoção de tecnologias limpas para cozinhar, aquecer, esfriar e iluminar mostra muitíssima redução à exposição à poluição do ar e reverte em melhoras na saúde, a médio e curto prazo (os impactos a longo prazo são muito maiores).   As medidas domiciliares são as que estão sob imediato controle dos indivíduos, e a ação de muitos leva a benefícios coletivos. A gestão sustentável dos resíduos, tanto domésticos como de agricultura, também resulta em um ar mais limpo, além de ainda poder ajudar a fertilizar o solo e assim apoiar a segurança alimentar.

Como as fontes de poluição do ar são com frequência a mesma fonte de gases de mudança climática, a melhora da poluição reflete também uma melhora na condição climática. Assim, a redução de poluição contribui para evitar os impactos na saúde causadas pelas alterações climáticas e suas consequências, como extremos de calor, aumento nas cheias e secas, aumento do nível do mar, que dentre outros riscos, relacionam-se muitas vezes ao aumento das doenças de veiculação hídrica ou transmitidas por vetores, como a malária ou a dengue.