Detalhes da notícia


A pandemia trouxe vários ensinamentos para a humanidade. Um deles foi aprender a redobrar os cuidados com a higiene, seja a pessoal, na residência, no trabalho ou nos processos de gestão dos resíduos. Hoje, o simples ato de sair de casa não é mais só pegar as chaves do carro ou a bolsa. Isso inclui o uso de equipamentos de proteção individual (máscaras, álcool gel). Este aparato de segurança ainda é maior para quem lida com a coleta de resíduos urbanos, além dos de saúde, que são altamente contaminantes

O Brasil gera por ano 79 milhões de toneladas de resíduos (lixo), mas apenas 4% deste total é reciclado. Se antes da pandemia a situação da produção de resíduos por pessoa (em média 1kg por dia) já era preocupante, imagine agora. É fato que o isolamento social acabou potencializando as compras pela internet, o que facilitou este ‘novo’ modo de vida, mas com isso, vieram as embalagens. Um levantamento feito em maio pela ABRELPE - Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais - aponta que os materiais recicláveis coletados pelos serviços de limpeza urbana tiveram tendência de crescimento, em média de 30%. Isso mostra uma mudança no perfil dos resíduos gerados dentro das residências que passaram a ter menos orgânicos e mais pacotes de produtos, devido ao aumento do mercado on-line e o consumo de alimentos prontos, por exemplo.
 

Carlos Silva Filho, diretor presidente da ABRELPE e vice presidente da ISWA - Associação Internacional de Resíduos Sólidos, que no Brasil é representada pela entidade brasileira, comenta: “vale ainda observar que, mesmo com aumento na coleta de materiais recicláveis, a reciclagem propriamente dita não cresceu na mesma proporção já que boa parte do volume coletado tem sido encaminhado para unidades de disposição final devido ao fechamento ou diminuição da atuação nas unidades de triagem em diversas cidades”.
 
A reciclagem, que é fonte de renda de muitas famílias em situação de vulnerabilidade social e um benefício ao meio ambiente, acaba sendo ainda um desafio para a gestão pública. A Política Nacional de Resíduos Sólidos - PNRS, que neste ano completou 10 anos, previa a extinção dos ‘lixões’ até 2014, cenário que ainda permanece quase inalterado e que, com esta crise de saúde, acabou ampliando a problemática sanitária e ambiental.
 
Na avaliação do diretor presidente da ABRELPE, “se todo o volume de materiais desperdiçados tivesse uma gestão adequada, com prioridade para o reaproveitamento e reciclagem dos materiais como determina a PNRS, os recursos naturais da Terra teriam tempo de vida útil maior, contribuindo para o não esgotamento dos ecossistemas, que hoje são consumidos à exaustão e de maneira muito acelerada. No caso brasileiro ainda teriam o potencial de injetar R$ 14,1 bilhões por ano na economia”.
 
 
Cenário dos catadores

A ANCAT - Associação Nacional dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis trabalha para o desenvolvimento socioeconômico e a divulgação do cooperativismo e associativismo. Também desenvolve projetos de incentivo à reciclagem e preservação ambiental. Tem como missão a defesa do meio ambiente e a promoção do desenvolvimento sustentável no Brasil. Recentemente, a ANCAT recebeu o selo GoPaperLess de Empresa Sustentável da D4S, uma plataforma de armazenamento de documentação e assinatura eletrônica. Para se ter uma ideia do que isso representa, até o momento, evitou a emissão de mais de 160kg de dióxido de carbono (CO²) e o gasto de 28 mil litros de água.

O Brasil possui cerca de 1 milhão de catadores de materiais recicláveis. Os ‘catadores’ são uma categoria reconhecida pelo Código Brasileiro de Ocupações (CBO), exercendo um importante serviço de manutenção da limpeza urbana. Dados do Compromisso Empresarial pela Reciclagem (CEMPRE), uma associação sem fins lucrativos dedicada à promoção da reciclagem dentro do conceito de gerenciamento integrado do lixo, revela que os catadores são responsáveis por 90% de todo o material reciclável que chega à indústria. Infelizmente, grande parte destas pessoas tiveram que parar as atividades de coleta de resíduos por causa da pandemia do coronavírus, pois os materiais recicláveis possuem alto índice de contágio, o que os torna um grupo de risco. Mas sem o seu trabalho diário perdem a renda, o que cria para esses profissionais da reciclagem e suas famílias inúmeras dificuldades. 
 
Para minimizar este impacto negativo, a ANCAT criou uma ‘Campanha de Solidariedade aos Catadores do Brasil’ que, mais do que nunca, precisam da ajuda de todos neste momento atípico. Quem sempre cuidou da cidade e do meio ambiente precisa agora do apoio da sociedade. Os valores arrecadados com as contribuições vão garantir a segurança alimentar, a proteção e o bem-estar destes brasileiros que mantém as cidades limpas e o planeta saudável.
 
O presidente da ANCAT, Roberto Laureano Rocha, comenta como a campanha está acontecendo: “a campanha solidária está em andamento ainda. Algumas entregas estão sendo realizadas, mas se aproximam do fim. Oficialmente, cerca de 5.300 catadores foram beneficiados com um cartão-alimentação no valor de R$ 200. Catadores estes de todas regiões do país, em 22 estados. Mas também recebeu apoio de ações regionais, que incluíram cestas básicas. Além disso, a ação atendeu alguns estados, como o Paraná, com apoio logístico para entrega de cestas básicas”, explica o gestor.
 
 
O coronavírus entre nós
 
Com o surgimento da pandemia da Covid-19, houve um forte impacto na saúde, na economia, na política e na vida de cada cidadão brasileiro. Medidas emergenciais precisaram ser tomadas em vários níveis e, dentre estas, algumas mudanças com relação a coleta e destinação do ‘lixo’ nosso de cada dia, pois este é um serviço essencial que não pode parar, ainda mais com a crise de saúde que a população vive.
 
Um recente Relatório da Organização das Nações Unidas – ONU intitulado: “Prevenir a Próxima Pandemia: Doenças Zoonóticas e Como Quebrar a Cadeia de Transmissão”, um trabalho conjunto do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e do Instituto Internacional de Pesquisa Pecuária (ILRI), revela que a procura por proteína animal em escala, a expansão agrícola não sustentável, a crescente exploração da vida selvagem e a crise climática potencializam o surgimento de zoonoses.
 
Para a Organização Mundial da Saúde (OMS) um animal foi a provável causa de transmissão do coronavírus em 2019, o que gerou uma infecção em cadeia em milhares de pessoas ao redor do planeta. Conforme a OMS, os mais prováveis transmissores da COVID-19 seriam os morcegos. Mas, é possível que o vírus possa ter sido transmitido ao homem por outro hospedeiro intermediário, como por exemplo um animal doméstico ou selvagem.
 
Mas como viver em harmonia com o ambiente, os seres humanos e todo este excedente de resíduos em tempos de pandemia? Órgãos públicos e empresas responsáveis pela coleta do resíduo urbano e dos serviços de saúde em cada município brasileiro tiveram que adaptar-se rapidamente a este novo cenário para fazer a operação com segurança e proteção evitando a contaminação dos colaboradores e a disseminação do vírus, até então pouco conhecido pela ciência. A ABRELPE inclusive produziu um material com recomendações para a gestão de resíduos em situação de pandemia por Coronavírus (o guia está neste link: https://abrelpe.org.br/abrelpe-no-combate-a-covid-19/).
 
 
O gerenciamento dos resíduos
 
O Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU), de Porto Alegre (RS), manteve os serviços essenciais prestados à população durante a pandemia do coronavírus. As coletas de resíduos, como a seletiva, para materiais recicláveis e coletas automatizada e domiciliar porta a porta, para orgânicos e rejeito e a limpeza urbana estão sendo executados normalmente. “Os nossos prestadores de serviço prosseguiram com a adoção de medidas emergenciais de proteção aos trabalhadores diante da Covid-19. As ações de fiscalização para o recolhimento dos materiais foram intensificadas, exigindo o fornecimento e o uso dos Equipamentos de Segurança Individual (EPIs), além da criação de protocolos de prevenção aos garis, como a orientação para que ocorra o afastamento de dois metros de distância entre os trabalhadores” explica Alessandra Nogueira Pires, Supervisora Operacional do DMLU.
 
Conforme a gestora operacional, o DMLU recolhe nas residências aproximadamente 1.150 toneladas de resíduos. Desse total de resíduos domiciliares coletados, 1.082,09 toneladas são de resíduos orgânicos e rejeito da Coleta Domiciliar e 60,87 toneladas de recicláveis recolhidos pela Coleta Seletiva. Há, também, 60 toneladas diárias de resíduos verdes (podas), que são encaminhadas para compostagem. Soma-se aos orgânicos e rejeito os resíduos públicos e as cargas recebidas na Estação de Transbordo, em que se chega a um total de 1.721 toneladas/dia de material enviado para o aterro sanitário. “Os rejeitos gerados na cidade são encaminhados para um aterro sanitário contratado, localizado em Minas do Leão (RS), cerca de 100 km da Capital.  Porto Alegre sempre foi modelo (desde 1989) em gerenciamento de resíduos sólidos e pioneira no encerramento dos lixões, quando em 1990 fechou o Lixão da Olaria na Zona Sul e iniciou a remediação do então Lixão da Zona Norte. Portanto, em Porto Alegre, há 30 anos não há mais lixões ativos”, complementa Alessandra.       
 
Porém um Raio-X da ABRELPE mostra que a geração de lixo no Brasil aumentou mais de 11% e cerca de 6 milhões de toneladas continuam sem cobertura de coleta. Segundo o levantamento, o percentual de reciclagem é de 4% na média nacional e os lixões ainda estão presentes em todas as regiões do país, com impactos no meio ambiente e na saúde de 37% da população. A produção de lixo passou de 71,2 milhões de toneladas/ano para 79 milhões de toneladas/ano, crescimento também observado no índice de geração per capita, que passou de pouco mais de 373 kg de lixo por ano para 380 kg/ano. Dados do Panorama dos Resíduos Sólidos 2018/2019 mostram que os estados de São Paulo (29,18%), Rio de Janeiro (10,40%) e Minas Gerais (8,78%) juntos são responsáveis por 48,36% de toda a geração de resíduos em âmbito nacional. A cobertura nacional de coleta dos resíduos sólidos urbanos, que era de 89% em 2010, ainda não alcançou sua totalidade, e 6,3 milhões de ton/ano continuam abandonadas no meio ambiente (92% de cobertura).
 
No estudo, o volume de resíduos coletados no país também registrou um aumento considerável de 2010, com 63,35 milhões de toneladas por ano, para 2019, com 72,75 milhões de toneladas, que em sua maioria (59,5%) seguem para disposição adequada em aterros sanitários. No entanto, nesse ponto da destinação o panorama é pior, já que mais de 29 milhões de toneladas de resíduos por ano são encaminhados para unidades inadequadas que poluem o meio ambiente e impactam diretamente na saúde de 77,65 milhões de brasileiros. “O problema da destinação final inadequada é o maior gargalo da gestão de resíduos no país, pois, se por um lado 400 municípios deixaram de fazer uso de unidades inadequadas, entre 2010 e 2019 tivemos um aumento de 9,5% no volume de resíduos dispostos em tais locais e com isso mais pessoas passaram a sofrer com os impactos negativos dessa prática, que atualmente tem um custo ambiental e para tratamento de saúde de cerca de USD 1 bilhão por ano”, comenta o Presidente da ABRELPE.
 
Segundo o gestor, a coleta de resíduos sólidos urbanos, que inclui os resíduos domiciliares, é o ponto inicial para todo um sistema adequado de gestão dos materiais descartados. “Aquilo que sequer é coletado acaba contaminando o solo e os recursos hídricos e, a partir do que é coletado e da forma como é coletado, viabiliza-se (ou não) a recuperação dos materiais. Dessa forma trata-se de um serviço da maior relevância que precisa ser universalizado e estruturado de maneira adequada no país”, finaliza Silva Filho, diretor presidente da ABRELPE.
 
Jorn. Esp. Cris Guimarães – MTB 11.145 
Esses e outros temas serão discutidos na 9ª edição do SEMINÁRIO CIDADE BEM TRATADA. Inscreva-se e participe desse debate!
 


Serviço
O que: 9º Seminário Cidade Bem Tratada
Quando: 04/11/2020
Horário: das 8h às 18h
Onde: Edição virtual, com transmissão pelo nosso canal no Youtube e página no Facebook.
Inscrições gratuitaswww.cidadebemtratada.com.br
Informações para imprensa: Coordenação CBT (51) 998058017
* Para solicitar seu certificado pós evento, sua inscrição é obrigatória