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A também pesquisadora do CNPQ tem experiência na área de políticas públicas, atuando principalmente nos seguintes temas: cidadania, recursos hídricos, governança, meio ambiente, resíduos, agroecologia, políticas públicas e responsabilidade ambiental
 

1.  Cidade Bem Tratada - No mundo hoje, mais de um bilhão de pessoas não têm acesso à água e 2,7 bilhões sofrem com a escassez. O Brasil é um país privilegiado quanto à disponibilidade hídrica, mas a falta de água é um dos principais problemas urbanos. Em muitas regiões, a situação se agravada pela má gestão e pelo tratamento inadequado, falta de saneamento básico, e outros por parte dos gestores locais, e pelas empresas que desperdiçam grande quantidade deste recurso. Como acha que esta situação poderia ser resolvida?
 
Dra Luciana - A situação não nos permite propor uma resolução de fácil cumprimento. Por sinal, a maior parte das questões ambientais da atualidade implica em soluções complexas. A própria questão do acesso à água potável passa por inúmeras frentes como já informado na pergunta. A má gestão, as condições geográficas e de distribuição populacional, as alterações climáticas, os problemas de saneamento, são alguns dos fatores que tornam o acesso mais difícil, em especial, para parcela mais carente da população. A resolução, por consequência, passa pela constituição de várias frentes. Uma das minhas principais apostas relaciona-se a adoção de modelos de governança hídrica que sejam de fato participativos. A governança, como tem sido executada, não tem permitido a participação efetiva dos órgãos que representam a sociedade civil. As decisões seguem centralizadas junto as instituições públicas ou até mesmo as empresas que tem influência nesses processos. A adoção de metodologias participativas quando das reuniões dos Comitês de Bacia e dos outros fóruns de discussão pode contribuir para essa reorganização, pois tais metodologias permitem que todos se manifestem e isto gera o empoderamento das partes. Outra necessidade urgente diz respeito ao acesso à informação. Sem informação, mesmo que garantidos espaços democráticos, aqueles que participam não são capazes de deliberar.
 
2.Cidade Bem Tratada - Um estudo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - Inpe revelou que as áreas suscetíveis à desertificação no Brasil correspondem a 1,3 milhão de km2. Ao todo, 1.488 cidades e 36 milhões de pessoas serão diretamente afetadas pela falta de água muito em breve. A região nordeste concentra o maior potencial do país para fontes renováveis. Porque o Brasil não investe mais em energias renováveis a seu ver?
 
Dra Luciana - Por questões de mercado, estratégias políticas e ainda devido ao lobby das indústrias que se beneficiam da produção de outras formas de energia. Há de se referir, no entanto, que as hidrelétricas são consideradas formas de geração de energias sustentáveis, se comparadas a outras tecnologias ora existentes. O país já vem realizando apostas em outras formas de energia renovável como é o caso da energia eólica, da energia fotovoltaica, do biogás e outros, no entanto, esses carecem de maiores investimentos.
 
3.  Cidade Bem Tratada - As mudanças climáticas, o desperdício e a poluição das águas têm tornado este recurso hídrico escasso em várias partes do mundo. Que medidas que visem à economia e ao reaproveitamento da água poderiam ser implantadas em grande escala nos municípios brasileiros?
 
Dra Luciana - Boa parte das medidas disponíveis ao Poder Público já se encontram regulamentadas em lei. É o caso, por exemplo, da obrigatoriedade de elaboração dos Planos de Saneamento, prevista na Lei 11.445 de 2007. No entanto, há de se ter presente que a poluição das águas não decorre somente da falta de saneamento, mas também, na atualidade, da presença de micro plásticos, hormônios, antibióticos e outros. Assim, ações em grande escala teriam que obrigatoriamente passar por novas regulamentações da legislação que estabelece parâmetros para qualidade da água, pelo efetivo exercício da fiscalização das possíveis fontes poluidoras e pela implementação dos sistemas de tratamento de esgoto doméstico.
 
4.Cidade Bem Tratada -   Localizado sob os territórios do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, o Aquífero Guarani, é a principal reserva subterrânea de água doce da América do Sul e uma das maiores do mundo. Mas tem sido ameaçado por atividades exploratórias. O que poderia ser feito para impedir estas ações?
 
Dra Luciana - Entendo que como estratégia inicial caberia a elaboração de um mapeamento das atividades que colocam em risco este Aquifero e, na sequencia, a determinação de formas de monitoramento das atividades que potencialmente poderiam colocar em risco esta reserva. Considerando o disposto na Constituição de 1988 acerca do domínio sobre as águas subterrâneas, também se faz necessária a criação de regras mais claras acerca da competência dos estados para proteção e fiscalização deste bem. E, cito ainda, a importância da informação, pois uma parcela considerável da população desconhece essa reserva e nem mesmo conhece o outro grande Aquifero localizado em território brasileiro que é o Saga ou também conhecido como Alter do Chão, considerado o maior reservatório subterrâneo de água do planeta.
 
5. Cidade Bem Tratada - No Seminário Cidade Bem Tratada o senhor vai falar sobre o ‘crise hídrica ou de informação’. Como avalia oportunidades como este evento para tratar destes temas?
 
Dra Luciana - O evento se coloca como uma belíssima oportunidade de diálogo entre públicos representantes dos mais diversos segmentos da sociedade, onde todos tendem a se beneficiar pois, somente com o diálogo seguiremos encontrando formas de reestabelecer o equilíbrio exigido pela natureza, e a convivência harmônica entre homem e ambiente.