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Matriz energética brasileira ainda é baseada em grandes hidrelétricas, extração de petróleo e carvão


O Caderno ODS 7, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), aponta que o Brasil está bem próximo de efetivar o compromisso assumido no Acordo de Paris sobre o Objetivo do Desenvolvimento Sustentável 7: elevar para 45% a participação de todas as energias renováveis na matriz energética até 2030. Entretanto, a situação não é tão positiva assim, de acordo com o coordenador do Seminário Cidade Bem Tratada, Beto Moesch.

Segundo os últimos dados do Instituto, de 2017, a matriz energética brasileira continua predominantemente de fonte hídrica: 65,2%. O carvão também é bastante explorado, com 2,6% da matriz. Em contrapartida, o gás natural obtido da biomassa é responsável por 10,5% da oferta e a energia solar atingiu, em 2017, míseros 0,13% da oferta, o que equivale a 832 GWh. “Esse percentual é ridículo se comparado a outros países, é um dos menores do mundo”, afirma Moesch.
 
Para ele, é preciso investir mais em energia limpa, como a solar e a biomassa, uma vez que a principal fonte brasileira vem de mega-hidrelétricas, questionáveis sob o ponto de vista ambiental. Para construir uma grande hidrelétrica é preciso criar barragens, retirar comunidades rurais de áreas próximas aos rios e lagos e alagar uma grande área matando a vegetação e acabando com plantações que são fundamentais para a existência das comunidades no entorno das regiões exploradas. “Devemos caminhar como a energia eólica, que representa 8% da matriz e continua crescendo, amplamente subsidiada”, ressalta.
 

Sofrimento

Uma pesquisa de campo nos arredores da Hidrelétrica de Itá, apresentada no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFRGS pela professora da Feevale Carmem Giongo, indicou que apenas 10% das famílias retiradas de seus lares para a construção da barragem foram indenizadas. Ou seja, os danos ambientais, econômicos e sociais que essas famílias e a região sofrem, não são compensados em 90% dos casos, o que causa miséria e problemas de saúde física e emocional. Muitas vezes também a instalação de barragens para alimentar as usinas são seguida por projetos para instalação de exploração mineral nas áreas drenadas, o que intensifica a degradação socioambiental e aumenta os riscos associados.

Carvão e petróleo

Outra fonte que figura em boa posição na tabela do Ipea, o carvão mineral também tem suas consequências desastrosas ao meio ambiente. “Atualmente, o carvão representa um perigo no Rio Grande do Sul”, destaca Moesch. Este tipo de fonte recebe, hoje, isenção total de ICMS no Estado, um incentivo muito superior ao concedido a quem investe em placas fotovoltaicas, que é de 25% apenas. 
 
A extração do prés-sal para geração de outra energia extremamente poluente, o petróleo, é outro ponto de preocupação para os ambientalistas. Quem investir nessa atividade no Brasil, ou seja, as grandes indústrias petroleiras, estará livre de impostos até 2040.
 
“Existe ainda resistência por parte de alguns segmentos do Brasil quanto às energias renováveis. São questões não só econômicas, mas culturais também”, observa Moesch. Ele lembra, porém, que investir em biomassa e sistemas fotovoltaicos é promover a descentralização da cadeia, contribuir para distribuição de renda e fomentar a economia. “Além disso, é muito mais ágil, pois não precisa ter licença ambiental, já que essas fontes de energia não oferecem impacto ambiental”, conclui o coordenador do Cidade Bem Tratada, que terá sua 8ª edição no dia 12 de setembro, no Ministério Público, em Porto Alegre.