Detalhes da notícia

 

1. CIDADE BEM TRATADA - Com toda a sua expertise na área de energia, como avalia atual matriz energética brasileira?
 
CARLOS CAFÉ - O Brasil tem uma matriz, quando comparada com o restante do mundo, ainda tem uma matriz bastante renovável, já que se teve a opção de se ter a riqueza das hidrelétricas. Se investiu muito em eólica no país, que é um dos maiores produtores de eólica do mundo. Do ponto de vista de biomassa, também somos os maiores produtores de etanol, para abastecimento dos veículos. A matriz brasileira é diversificada, tem a riqueza de ter vários energéticos participando, mas para que a gente possa estabelecer objetivos de prosperidade adequados e combinados com a questão energética, com o crescimento que o país precisa, nós precisamos de muito investimento no setor elétrico como um todo. Se tivéssemos taxas de crescimento representativas não haveria energia para suprir todo este crescimento. Temos um cenário hoje de uma tarifa de energia extremamente elevada, assim como a tarifa dos combustíveis. Então, se por um lado nós temos uma matriz diversificada, por outro temos um cenário que, em um horizonte de prosperidade, não temos mais como investir muito em hidroelétricas. Não há mais espaço para desenvolvimento deste tipo de empreendimento. A energia nuclear não tem apoio popular, não só no Brasil, mas em grande parte do mundo. Teríamos que trazer à tona o desenvolvimento das renováveis de forma mais maciça e combinada com as fontes fósseis que ainda estão disponíveis para serem usadas como o gás, por exemplo, mas mesmo assim, a gente entende que os recursos fósseis estão na sua era final de exploração. Portanto, seria um grande momento para se trabalhar o desenvolvimento das energias renováveis para o crescimento do país.
 
2. CIDADE BEM TRATADA - Porque o Brasil não amplia o uso de fontes limpas e renováveis como a solar fotovoltaica, a eólica, biomassa, por exemplo?
 
CARLOS CAFÉ - O Brasil já é um país que tem bastante utilização de energia renovável na participação da matriz quando se compara com outros países, principalmente pelo fato das hidrelétricas, o que muda quando se fala em energia solar, fotovoltaica, biomassa em todas as suas aplicações, na utilização do lixo como biomassa. A grande diferença que se vê entre a renovável antiga e a renovável deste momento, é que a renovável que faz sentido hoje em uma parte do mundo e, no Brasil não seria diferente, é a renovável distribuída. Vamos pensar que nós privilegiamos durante anos o uso das rodovias em detrimento do desenvolvimento de outras formas de transporte. Cometemos este equívoco e não investimos em hidrovias, em ferrovias e temos aí a depauperação de outros setores em detrimento deste, que é o automóvel. A mesma coisa acontece no setor de energia quando se pensa que a decisão histórica de se construir grandes empreendimentos. A gente pode considerar que o que se tem de renovável no país, tanto do ponto de vista de hidrelétrica como de eólica, são gerações centralizadas. Estas demandam um alto investimento de capital. Ocorre por meio de compras governamentais, que são os leilões e, evidentemente, favorece o desenvolvimento. Tem uma justificativa de reduzir o custo de energia que não se traduz e não acontece no Brasil efetivamente. Na verdade a nossa energia só aumenta nos últimos anos de forma volumosa, apesar dos recursos já estarem pagos e mitigados os investimentos no setor de geração, distribuição e transmissão. Então, vamos pensar que uma decisão antiga de uma economia que quer se ver próspera era de trabalhar com geração centralizada, que é extremamente antiquada quando se fala em prosperidade no momento da economia mundial que tem sua característica intrinsecamente descentralizada, que é a geração distribuída. Esta sim tem inúmeras vantagens em relação geração centralizada. Não há como comparar as duas no ponto de vista de geração de emprego. Com as renováveis nos pontos de consumo há mais oportunidades de negócios para os estados e municípios, para o governo brasileiro, para a tecnologia, existem muito mais pessoas envolvidas com a geração distribuída e aí sim as renováveis conseguem florescer e dar o tom do crescimento na velocidade que nós precisamos. Existe um movimento contrário à geração distribuída no Brasil, que vem tomando forma, e uma forma muito perigosa, com argumentações muito fracas do ponto de vista técnico e números. Há uma tentativa de manter a geração centralizada como foco no desenvolvimento das energias renováveis. A grande mudança para as renováveis acontece quando se pensa que a economia distribuída deva prevalecer em relação à economia centralizada.
 
3. CIDADE BEM TRATADA - Na contramão de todo um movimento em busca de alternativas energéticas sustentáveis, o Rio Grande do Sul tem dado incentivo à exploração do carvão mineral, a exemplo do projeto Mina Guaíba. Como vê esta questão?
 
CARLOS CAFÉ - A questão do carvão, em várias regiões do mundo, existe aquela questão de um lob muito forte ainda da economia fóssil e as termoelétricas no Brasil movidas a gás, a carvão, ainda têm o seu papel importante no país, pois entram quando nossos reservatórios estão vazios. O combustível fóssil entra para dar um suporte. Evidentemente, em alguns países a energia solar entra de forma tão avassaladora, a eólica junto com solar, que o preço de uma usina movida à carvão ficou tão diferente, que foi necessário inclusive desconstruir e descomissionar as usinas de carvão em vários países como na Austrália, onde ficou mais caro se manter a usina desligada do que utilizá-la em algum momento como energia fina. Acho que este momento vai chegar no país, de desconstruir algumas operações de energia fóssil, porque vão ficar tanto tempo desligadas, sem produzir energia, que não vai fazer sentido nem mantê-las desligadas porque  custa caro e quem paga a conta de manter uma estrutura ‘dinossáurica’ somos nós. Nossa energia é cara também porque temos que manter a estrutura pesada ainda para suportar as variações hídricas e a opção energética de estar com tudo centralizado. Sem contar que gerações fósseis são intrinsicamente inseguras e muito mais poluentes do ponto de vista climático também de proteção ao clima. O uso de combustíveis fósseis também é um retrocesso sem tamanho. No mundo inteiro as políticas climáticas tem sido levadas à sério, o acordo de Paris diz isso, de reduzir as emissões. Hoje, com tantas opções tecnológicas que se tem, investir em uma usina termoelétrica à carvão soa como um retrocesso muito grande, já que há possibilidades de gerar a mesma energia utilizando tecnologias muito mais eficazes, baratas e renováveis. Seria muito interessante que o Estado tivesse trocado a usina de carvão por um mix de eólica com solar mais algum sistema de bateria se a opção desta usina à carvão é manter ou dar apoio de uso de termoelétricas. Mas a priore, hoje, é completamente inviável economicamente você investir numa usina à carvão. Não faz muito sentindo nem ambiental nem econômico.